Contra Todos

Por Otávio Mazza

Contra Todos é um daqueles filmes que deixam o espectador com uma sensação de desconforto após o fim da sessão.

Desconforto não implica necessariamente desagrado.

O filme é muito bem feito. Sua grande força está nas atuações. Praticamente todos os personagens centrais estão sustentados em interpretações convincentes e bem naturalistas, como convém ao filme.

Mas esse não é o único ponto alto de Contra Todos. Direção e montagem, razoavalmente sóbrias, evitam o excesso de efeitos e maneirismos que andaram – e ainda andam – imprimindo uma estética muita próxima da publicidade a alguns títulos das safras mais recentes do cinema brasileiro.

Tal sobriedade é parcialmente traída ao final do filme, quando se utiliza de um recurso narrativo à Tarantino um pouco gasto e tudo torna-se excessivamente explicativo, mas nada que ponha a perder – é claro que, como todo o resto do que se lê aqui, trata-se de um juízo de valor – a contundência do que se vê na tela.

E o que se vê é um soco na boca do estômago. O cenário é uma São Paulo entre a periferia e o centro degradado, mas poderia ser qualquer outra grande cidade do país.

Com raras exceções, os personagens se relacionam unicamente, ou se relacionam “melhor”, por meio do sexo ou da violência.

O mais angustiante é que parte deles, busca, como quem tateia no escuro, em vão, um caminho, uma saída.

Tenta-se pela fuga, ao jogar tudo para o alto em um rompante e abandonar o núcleo familiar nada sólido, no caso da esposa (Leona Cavalli); por meio da tentativa de ingresso em um mundo virtuoso – o da igreja e dos “tementes a Deus” – que lhe é completamente estranho, no caso do “pai de família” e esposo (Giulio Lopes); ou simplesmente desfrutando a vida, aproveitando o pouco que conhece como diversão – o que faz a filha (Silvia Lourenço).

Esse debater-se em vão leva a um fim trágico e cínico, pois, dos personagens centrais, o único plenamente satisfeito com o que o destino lhe reserva é aquele que nada questiona.
Aquele para quem não há problemas morais ou éticos. O amoral vence.

Esse vácuo moral, a pobreza das referências pessoais de valor, enfim, a aridez das relações entre os seres humanos e, principalmente, deles com eles mesmos, dá o tom amargo de Contra Todos.

Incômodo

Para muitos espectadores, esse beco sem saída que o filme sugere ao acender das luzes, pode passar uma sensação de gratuidade, de mal-estar pelo mal-estar.

Contribui para isso a recorrência de uma leitura desesperançosa ou no mínimo bem desiludida de Brasil na produção cinematográfica nacional mais recente, o que coloca Contra Todos ao lado de trabalhos como Cidade de Deus, O Invasor, Carandiru e O Homem do Ano, ficando nos mais conhecidos.

A predominância de temas indigestos não surge à toa. Quando se toma o conjunto das obras mencionadas – às quais podem ser acrescentadas várias outras à luz da memória do leitor –, tem-se, à parte as enormes diferenças estéticas entre os estilos de cada autor, um perfil de um país com inúmeras questões não-resolvidas e para as quais não se vislumbrava solução quando tais obras foram feitas. Isso poderá ser notado com mais facilidade quando o tempo tiver passado e, esperamos, parte desses nós já tenham sido desatados.

Da profissionalização da criminalidade favorecida pela exclusão social e geográfica à crueldade policial impune e institucionalizada, passando pela associação entre as classes alta e baixa para a execução de serviços sujos, encontramos um apanhado de mazelas que persistem e resistem quase completamente à margem do alcance das políticas públicas e dos surtos de crescimento econômico.

Daí o tom francamente desalentador desses trabalhos.

Contra Todos surge nessa onda com uma temática até mais intimista. A realidade indesejada de brutalidade e falta de perspectivas é menos tema do que cenário para o desenrolar de tragédias pessoais e familiares.

Otávio Mazza é jornalista

Ficha Técnica: Contra Todos
Direção: Roberto Moreira
Elenco: Giulio Lopes, Leona Cavalli, Sílvia Lourenço, Aílton Graça, Martha
Meola, Dionísio Neto, Gustavo Machado, Paula Pretta, Ismael de Araujo,
Laís Marques, Waterloo Gregório, Fernando Petelinkar, Alessandro Azevedo, Neusa Velasco, Sérgio Cavalcante, Elder Fraga, Sérgio Pardal, Daniel Coelho, Nei Pelizzon.
Nacionalidade: Brasil, 2004
Duração: 95 minutos
Gênero: Drama
Classificação: 18 anos

 

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Raquel Sá - 2004